Vinha escutando Martinho da Vila hoje, afinal nem só de Reggae vive este espaço e pensei como o negro desde sempre tem um desempenho fora do normal em qualquer atividade, sobretudo na música.
Acho que tem a ver com a própria história deste povo – Povo mesmo! Se o Judeu foi perseguido escravizado, rotulado, discriminado, exterminado e avariado, ganhou Israel, no mínimo o povo negro merecia a ilha de Manhatan só pra eles.
O Tosh explicou, uma vez em uma entrevista, sobre a origem do nome da banda que ele fundou com o Marley e o Livingston:
‘Wailers’ - ‘Wail’ é um verbo que significa exprimir os seus sentimentos vocalicamente. Quase uma lamúria, tipo ‘Bob Marley e os Lamuriadores’, ou ‘Bob Marley e os Lamentadores’ algo assim.
Já ouvi dizer que a música, a arte em geral, é uma expressão de um sentimento. Quem melhor pra exprimir um sentimento que eles?
Notadamente, esta opinião não é só minha, compartilho até com o nosso último imperador. Chamado de mecenas – Aquele que contribui financeiramente, ou até politicamente com a arte – D. Pedro de Alcantara, o Habsburgo, não o de Bragança, ou seja o Segundo mantinha em seu palácio uma orquestra composta somente de negros.
Racista? – Pensaria você, Politica Social do Império tropical?
-Não! Talento e Qualidade. Diria eu.
Veio a abolição e uma onda forte empurrou nossa gente para o fundão das grandes cidades.
Demorou um tempo até a maré baixar – É como quando você é uma criança e vai ver o mar pela primeira vez. Ele te derruba e te manda pro fundo na primeira onda, o choque é rápido e em pouquíssimo tempo você tá de volta a superfície.
É rápido quando você se lembra da cena, mas na hora lá, demorou tanto que dava pra contar as bolhas de ar saindo da sua boca ou perceber as sutis variações tônicas na cor da água acima dos seus olhos.
No contexto histórico, a retomada do ébano aos ouvidos populares foi rápido, mas pra quem sofreu o período de estagnação econo-racista foi como contar bolhas embaixo d’água, assim diria Simonal. Ninguem sabe o duro que dei! – Título do documentário de Claudio Manoel sobre o cara do Limão-limoeiro, aquele do pé de jacarandá.
No abaixar das águas, a maré revelou oculta no arrecife outrora inundado a voz e o ‘Wail’ do Martinho José Ferreira ou Martinho da Vila, Vila Isabel no norte do Rio, terra também de Noel, representante-mor e resultado clássico da história que o seu sangue carrega e faz sentir em nossos corações.
Ouvi de um músico uma vez que a música é pra se sentir. Quem não a sente não a conhece.
Não tão somente misticamente, ou sentimento abstrato mas sentimento físico. Desde que a música existe, seus sons refletem fisicamente no ser humano, é pra isso que ela sempre serviu. Vai de como batuque africano contribui para o ritual de transe até o som utilizado nas igrejas evangélicas atualmente (Veja que a prática de música nas igrejas, pelo menos da forma que vemos ou ouvimos mesmo de bem longe, vem dos negros) contribuindo para o clima desejado dentro de uma Universal por exemplo.
Note como o som de um surdo em uma roda de samba ou o roncar de um baixo nas radiolas de reggae no Maranhão fazem o seu diafragma vibrar!
Nesta mesma onda surgiu a voz do Sebastião Rodrigues, o Maia. O Tim, trouxe pra república dos Tabajaras e Tupinambás um som novo, moderno, gingado como o reggae, malandro como o samba e carregado de Wail como a melhor música negra poderia trazer. Suas letras traziam as inquietações e percepções da sua própria realidade que só quem está na mesma afinação que ele (Na mesma maré sentimental do cara) pode sentir.
Quem nunca concordou com ele alguma vez na vida com a frase:
“A gente tem que entender, que um nasce pra sofrer enquanto um outro ri..”
Seja quando você perde uma namorada ou não consegue aquele emprego que se queria bastante, ela ancaixa como prego de ferro em buraco imantado. Simplesmente porque ele também sentia algo parecido quando escreveu isso. Assim como tantos outros expoentes da nossa música, principalmente nas mesmas condições que comentei acima, e tantos outros influenciados – Assim como eu - ideologicamente, musicalmente e qualquer outra coisa que o sufixo ‘-mente’ permita.
Você pode até não gostar dos caras que apareceram neste texto, provavelmente porque nunca sentiu a música deles. Aqueles que você admira foi porque ‘sentiu’ a música. Isto não é uma crítica, somente um fato.
Fica aí um singelo Revival, um pequeno pincelar sobre as rugas da história da Música Popular (e Negra) Brasileira e parafraseando um conteporâneo desta realidade:
“Que tempo bom, que não volta nunca mais...!”
Nenhum comentário:
Postar um comentário