domingo, 11 de setembro de 2011

Um panorama sobre o Reggae


Caro leitor, é natural a associação deste ritmo genuinamente jamaicano ao cantor de mesma naturalidade - Bob Marley. Mas, talvez, para a sua surpresa este estilo musical não resume-se apenas a estrela maior do cenário mas também não é estendida à um leque muito grande de artistas.

Se falarmos sobre os anos 80 por exemplo, apesar da pluralidade de intérpretes as bases musicais são creditadas à pouquíssimos músicos. Por uma particularidade bem regional, o poder econômico da pequena ilha caribenha não permitia que várias pessoas pudessem comprar seus próprios instrumentos e cada conjunto musical possuir seus músicos exclusivos. Isto criou uma cultura em que os donos de estúdio eram aqueles quem possuíam os instrumentos e por consequente contavam com uma banda fixa e para todos aqueles intérpretes que gravavam naquele determinado estúdio eram legados à base musical dos artistas fixos.

Nos anos 60 o produtor Lee Perry, tinha o seu próprio estúdio e a sua própria banda: The Upsetters que contava com Gladstone Anderson, tecladista, Alva Lewis, guitarrista, Glen Adams, no órgão e os irmãos Aston 'Family Man' Barrett e Carlton Barrett no contra-baixo e bateria respectivamente e eram responsáveis por toda a produção artística daquele estúdio.

Aqui abaixo uma amostra do som que os Upsetters destilavam:





Veja você que a sonoridade é praticamente a mesma, pois claro, são os mesmos músicos trabalhando em regime fabril.
Parte dos músicos que compunham os Upsetters deram origem mais tarde a banda mais bem sucedida do Reggae internacional, The Wailers. As informações sobre este grupo são massivas e até criaram uma aura de perfeição musical que este blogueiro discorda, outras bandas são tecnicamente superiores ao conjunto Wailers salvo a individualidade de Family Man e de Charlton com o seu 'One Drop' (A batida característica da bateria em que assemelha-se ao som de uma gota pingando). Falando da maior banda de Reggae de todos os tempos, ou pelo menos a tecnicamente melhor: The Roots Radics.

A Roots Radics não alcançou o sucesso dos Wailers unicamente por não estarem ligados à um intérprete diretamente. Eram e são uma banda independente com uma sonoridade impar liderados pela Lenda Errol 'Flabba' Holt.


Praticamente todos os Reggaes gravados na ilha nos anos 80 tem a participação da banda registrada principalmente com Gregory Isaacs, Eek A Mouse, Israel Vibration e Bunny Livingston. A atmosfera do som é fascinante, como se algo misterioso habitasse o bosque cheio da neblina branca, acompanhado do Contrabaixo marcante de Flabba Holt que ficar sem ar quem o escuta pela interferência das ondas sonoras no diafragma. O jogo de teclados e orgãos fascina porque parecem imperceptíveis e inúteis, mas revelam todo balanço rítmico nas pausas estratégicas promovidas pelo engenheiro na mesa de som.



Gregory Isaacs & Roots Radics - Heartache



Bunny Wailer & Roots Radics - Dance Rock



Eek A Mouse & Roots Radics - Ganjah Smuggling



Ronnie Davis & Roots Radics - No More Darling



Além da espetacular Roots Radics, não poderiam ficar de fora a Fully Fulwood Band que acompanhou Big Youth, Freddy Mcgregor e Delroy Wilson:




Big Youth & Fullwood Band - S-90 Skank



Dennis Brown & Fullwood Band - Silver Words




Para o próximo capítulo, falaremos sobre a Solar System, Word Sound and Power e Sly & Robbie.
A priori é possível concluir que o Reggae agoniza, todos estes músicos já estão no crepúsculo da idade e contra a foice do tempo é vão o combate. Irá com eles todo o talento e a inovação que criou o Reggae.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu não sou cachorro não - Música brega e Ditadura Militar


Acabei de ler o livro do meu conterrâneo Paulo César de Araújo.

Confesso que passei a olhar com outros olhos e ouvir com outros ouvidos a música dita brega no Brasil, principalmente aquela produzida nos anos de chumbo na história da nossa República. O Livro 'Eu não sou Cachorro Não - Música Popular cafona e Ditadura Militar' traz o panorama da música nacional naquele período sobretudo a musica verdadeiramente Popular brasileira, aquela feita pela parcela maior da população, exprimindo seus sentimentos e o senso comum compartilhado por aqueles brasileiros.




Se você não vê a excelente cultura e os costumes do seu próprio país e abre as pernas pro que os outros lhe impõe sem camisinha ou vaselina como o Tio Sam sempre quis*, saiba que estes intérpretes, compositores e acima de tudo lutadores foram tão ou mais combativos e sofreram tanto quanto os cantores ditos de elite com o chicote da censura.




No dia em que a Ditadura completou 13 anos, um desses cantorezinhos gravou um single aparentemente inofensivo, mais um bregão que passaria despercebido não fosse o recado oculto e rapidamente assimilado pelos altos calões do governo:





De quebra ainda podemos citar o cantor Geraldo Vandré, compositor de 'Pra não dizer que não falei das flores' o cantor foi totalmente identificado com a luta democrática assim como Bob Marley foi relacionado à Cannabis, porém um caso não tem nada à ver com o outro na realidade. Vandré não tinha intenção nem tampouco tinha vocação de líder revolucionário, queria apenas promover a sua música como Mano Brown por exemplo e entrou em surto com a responsabilidade que herdou.



Compre o excelente livro aqui. O autor é o mesmo que teve sua obra sobre a Vida de Roberto Carlos proibida, recolhida e incinerada como nos tempos do chumbo grosso.

domingo, 28 de agosto de 2011

Roberto Carlos, Funk e Tim Maia

Não é possível agradar aos árabes. Tampouco aos brasileiros, avalie aí todo artista - que esteja vivo, pois esta é a prerrogativa principal - que nasceu acá nas Terras de Santa Cruz que obteve qualquer exito musical acima da média que sempre tem um que critica. Se a mídia adotar o cara então, segura, você ouvirá o cara no café, no ônibus, no jantar e na hora de dormir será embalado pela sua melodia. Nos tempos atuais não há melodia, não há sonoridade, não há sentimento envolvido no negócio. Só há negócio exatamente porque a galera que consome nem sabe porque e é esse que rechaça os grandes talentos nacionais. Em um tempo onde Beatles e Rolling Stones dominavam o cenário mundial, tenha certeza que se Roberto Carlos tivesse nascido em território Anglo-saxão, seu primeiro sucesso 'I Wanna Everything Go to Hell'  teria incendiado o mundo todo (refiro-me ao Single 'Quero que vá tudo para o Inferno' de 1966).

Roberto Carlos braga nasceu em Caichoeiro do Itapemerim lá no Espirito Santo e foi no Rio de Janeiro na década de 60 que alcançou sucesso comercial na metade desta década impulsionado pela carência cultural que vivia o mundo pós-segunda-guerra mundial e pela chegada da Televisão. Foi nesta mesma época que os rapazes de Liverpool tomavam o mundo também da mesma forma e só depois da estável posição de ídolo incontestável e do dinheiro jorrando por conta dos direitos 'imorríveis' é que os mesmos músicos conseguiram impor os seus desejos musicais.

Eu particularmente desgosto da fase de Roberto Carlos em seu período de aplicação prática e liberdade composicional, diferente dos senhores de Liverpool que evoluíram para uma música internacional e bem elaborada, onde preferiu seguir uma linha mais suave e assumiu uma posição de Frank Sinatra ou Julio Iglesias, sendo um grande Crooner e comercialmente muito bem sucedido.


Falando dos tempos que me agradam, o LP 'Em Ritmo de Aventura' e o Seguinte 'O Inimitável', são discos muito bem elaborados, com destaque para o Orgão de Laffayette e a troca de olhares entre Roberto e o Funk americano que foi evoluindo nos discos seguintes como pode ser observado neste sucesso de 1969:




Excelente jogo de metais nas respostas (Sax, Trombone e trompete), o backing vocal sutíl e a guitarra seca bem semelhante à de Peter Tosh em 'Stir It Up'  que só foi produzida no verão de 1972 na inglaterra e o swing de um contrabaixo marcado como em 'Não Vou Ficar'.

Esta música tem uma história interessante: No começo da década de 70, o síndico - Ele mesmo, Tim Maia - era um antigo conhecido de Roberto desde os tempos da banda Sputnik, na qual Roberto era o guitarrista que acompanhava Tim Maia nos vocais. Depois de morar alguns anos fora do país, onde perdeu todo o principio do programa Jovem Guarda da TV Record, Tim encontrou toda a sua antiga turma dos tempos de infância do Rio de Janeiro fazendo sucesso nas terras da garoa, ganhando dinheiro e pegando menininhas.

Esperto como era, quis logo participar da divisa do bolo. O pedaço de Tim demorou pra ser oferecido e quando este chegou veio amassado por Baalzebul, Mefistófelis, Azmodeus e toda a turma do exército daquele que carrega a luz. Passou meses tentando falar diretamente com Roberto Carlos, em vão, morando de favor com amigos sendo e sentindo humilhado. Em um desses favores, chegou a morar com o cantor paraguaio Fábio, em épocas do auge do Iê-Iê-Iê o que valia a Fábio inúmeros encontros amorosos em seu apartamento, cujo Tim aproveitava o sofá e nunca pegava ninguém devido à sua obesidade, negritude e principalmente anonimato. O amigo de Tim ainda pedia as suas groopies  que só de favor dessem um pouquinho à Tim, pedido que era automaticamente rejeitado por conta dos detalhes que citei acima.

Essas situações renderam a música 'Azul da Cor do Mar' 'E na vida a gente tem que entender/Que um nasce prá sofrer/Enquanto o outro ri..'.


Nas perseguições ao Roberto, Tim conseguiu falar com Nice (Que era a senhora Roberto Carlos na época) e que se sensibilizou com a história do síndico. Nice convenceu Roberto à gravar alguma música de Tim para ajudá-lo, mas Roberto não quis gravar a música oferecida, 'Você' (Você/É algo assim/É tudo pra mim), por ela já ter sido gravada por Eduardo Araújo, anos antese se comprometeu a gravar qualquer música que Tim compusesse desde que ninguém houvesse gravado-a antes. E assim foi, na volta pra casa Tim compôs 'Não Vou Ficar' e despertou a fase Harlem de Roberto Carlos e uma nova página em sua carreira:






o Brejo do Cruz, Psicodelia e Surrealismo




É meu caro rapaz, ou rapariga ou moça cá na Ilha de Vera Cruz, estava aqui agradecendo ao Cosmo por este cara ter nascido no finalzinho da safra mais talentosa que houve no mundo. Sim, na já gasta segunda guerra mundial, as bombas de Hiroshima e Nagazaki juntamente com os projetos secretos de Hitler desencadearam uma série de eventos que Poincaré assinaria em baixo dando fé a Teoria.

Agradeço porquê se tivesse nascido depois deste tempo, provavelmente não teria aproveitado a fonte musical que jorrou nesta época ou ainda perderia espaço para o cantor-padrão-moderno:

Bonitinho e sem talento algum.

Mas graças aos mesmos eventos que garantiram a natividade no exato momento necessário, podemos apreciar todo o talento, sentimento e porquê não a atmosfera musical de Zé Ramalho.



Tenho fé que os anos irão se passar, mas que no fundo teremos ainda aquela velha certeza. Sim caro leitor, aquela mesma ideia no cume do olho de sair do poço, assim mesmo como estamos, bem na garganta do fosso. E sair dela na voz de um cantador.
Assim falou Zé Ramalho, nos terreiros da usina, na velha pedra de turmalina que guarda os segredos de Brejo do Cruz


Escute aqui uma das minhas músicas preferidas deste senhor, preste atenção no contrabaixo trabalhando como diríamos no Reggae, amassando o barro enquanto orgãos e violinos reproduzem o som das rabecas e compõe o cenário perfeito para uma música tipicamente única!



Uma música que caberia facilmente em um quadro de Salvador Dali, caso os quadros fossem dotados de sonoridade.
Caso uma música pudesse transformar seus sons em imagens, tenha certeza que veríamos um quadro surrealista cheio de símbolos e de desenhos compostos que se revelariam em cada vez que o víssemos.



Zé Ramalho e as Falas do Povo:



Falo da vida do povo

Nada de velho ou de novo

Em velhas mansardas, mansões e motéis

Os homens planejam os seus carretéis
Novelos e linhas, labirintos e ruas
As mulheres e luas são pedaços da noite
Vizinhos avisam, prezam seus anéis
O custo da vida, um conto de réis
Apitos de fábrica ressoaram de novo
Alegria do povo é sambar e sonhar

Falo da vida do povo

Nada de velho ou de novo...

Em feiras distantes, romeiros fiéis

Desfiam seu canto, velhos menestréis
Pelejas e lutas, esperanças de novo
Ninguém pede socorro nem se afoga no mar
Mendigos e risos, os ferrões do amor
Novamente os risos, os leões, domador
Acertaram no alvo, acertaram no negro
Descobrir o segredo de sorrir e chorar

Falo da vida do povo

Nada de velho ou de novo...



o Mistério do Pavão

Qualquer dia eu mudo o nome desse blog para 1945. Outro exemplo que nasceu neste período e que foi dotado pela excelência do talento musical.

Aqui a apresentação do Cearense Ednardo no Fantástico em 1976. Um som extremamente criativo, ao mesmo tempo inovador e conservador juntando o rítmo oriundo do agreste nordestino com a pluralidade sonora nos anos 70, aliado à uma letra emblemática, simbólica que casa perfeitamente com o clima misterioso da melodia.

Senhoras e senhores, com vocês, Ednardo:


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Digam: bem vindo!

Caros leitores fiéis deste blog, tenho a honra de apresentá-los o Hammer Head. O Cara falará sobre todo o mundo das guitarras pesadas, dos bumbos duplos e de toda a sonoridade metálica contida em um dos sons mais bem sucedidos no nosso orbe telúrico.

Bem vindo Hammer!!!



Dust - Hard Attack 1971


Há uns quatro anos atrás tive o prazer de descobrir esta pérola da década de 70.
O Dust foi formado nos EUA e tinha em sua formação Richie Wise (guitarra, violão e vocal), Marc Bell (bateria) e Kenny Aaronson (baixo). O Power trio lançou apenas dois discos, sendo o impecável Hard Attack o mais conhecido. Encontramos aqui uma perfeita combinação entre o hard rock, o psicodélico e algumas pitadas de blues, o que deixa a audição mais interessante. A capa foi desenhada por Frank Frazetta, um dos maiores ilustradores mundialmente conhecidos, responsável por imagens clássicas como Conan e Tarzan. Como curiosidade vale citar que Richie Wise seria o primeiro produtor do KISS e que Marc Bell, anos mais tarde viria a fazer parte da mais emblemática banda PUNK de todos os tempos, os RAMONES.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pink Floyd, Rock Psicodélico e a arte pop

"Pedrão vinha dirigindo para o trabalho e reparou como tem chovido em São Paulo ultimamente.

-Poxa vida, e não é uma simples chuva... – Pensou encafifado, seja lá o que for o significado desta palavra.

Lembrou que leu em algum lugar que os esquimós têm mais de duzentas palavras diferentes para a neve,
sem elas as suas conversas possivelmente seriam, tipo, bastante monótonas.
Eles distinguem então entre neve fina e neve grossa, neve leve e neve pesada, neve derretida,
neve quebradiça, neve que vem acompanhada de uma rajada de vento, neve que é levada pelo vento,
neve que vem trazida pela sola das botas do seu vizinho e arruínam o lindo chão limpinho do seu iglu,
as neves do inverno, as neves da primavera, as neves da sua infância que eram tão melhores do que essas neves modernas,
neve fina, neve aerada, neve de colina, neve de vale, neve que cai pela manhã, neve que cai à noite,
neve que cai de repente bem na hora em que você ia sair para pescar e neve na qual os seus huskies siberianos mijaram em cima,
apesar de todos os seus esforços para treiná-los.
Tem chovido tanto em São Paulo que já dá pra fazer os mesmos que os esquimós. Já dá pra contabilizar duzentos e trinta e um tipos diferentes de chuva que caíram em apenas uma semana!
-Quem dirá os co-irmãos cariocas héin?
Só hoje de manhã indo pro trabalho, o Pedrão passou pelos tipos 33 (chuvisco leve e pinicante que deixa as estradas escorregadias), 39 (gotas pesadas), 47 a 51 (de garoa vertical leve passando por garoa refrescante inclinada indo de leve a moderada), 87 e 88 (duas variedades sutilmente distintas de aguaceiro vertical torrencial), 100 (ventania uivante, pós aguaceiro, gelada), todos os tipos de tempestades marítimas entre 192 e 213 ao mesmo tempo, 123, 124, 126, 127 (pancadas frias amenas e intermediárias e tamborilar regular e sincopado), 11 (gotículas frescas)
Saindo de casa, pegou a famosa 17.
A chuva tipo 17 é uma gosma suja, que choca com tanta força contra seu pára-brisa que não fazia muita diferença ligar ou não os limpadores.

Testou a sua teoria desligando-os brevemente, mas a visibilidade de fato ficou bem pior. Mas também não conseguiu melhorar muito quando ele tornou a ligá-los.
Para falar a verdade, uma das lâminas começou a se soltar.

-Swish swish flop swish flop, Arranhão.
- Swish swish flop swish flop flop flop arranhão.

Esmurrou o volante, chutou o chão e socou o som até que ele começou a tocar Martinho da Vila de repente. Depois socou mais um pouco até ele parar de tocar e xingou, xingou, xingou, xingou e xingou.
Justo quando sua fúria estava atingindo o auge, lá estava, nadejante, diante de seus faróis, quase invisível por causa da gosma no pára-brisa, uma figura no acostamento.
Uma pobre figura ensopada com uma roupa esquisita, mais encharcada do que uma lontra em uma máquina de lavar. E pedindo carona.

- Pobre infeliz desgraçado.. -Pensou o Pedrão, percebendo que ali estava alguém com mais direito do que ele de sentir-se injustiçado.

-Deve estar gelado até os ossos. Que burrice, ficar pedindo carona de manhã assim.

-Você só consegue ficar frio, molhado e exposto aos carros que passam por cima das poças só para te molhar.

Ele balançou a cabeça entristecido, suspirou novamente, virou o volante e atingiu em cheio uma grande poça d'água.

-Você entende agora? - Pensou, enquanto atravessava a poça. "Você encontra completos idiotas na rua."

Alguns segundos depois, respingado no espelho retrovisor, estava o reflexo da figura, ensopado à beira da rua.
Por um segundo, o Pedrão sentiu-se bem com aquilo. Um ou dois segundos depois, sentiu-se mal por ter se sentido bem.

Então sentiu-se bem por ter se sentido mal por ter se sentido bem e, satisfeito, prosseguiu rua adentro.

Pelo menos conseguira descontar em alguém o fato de ter sido finalmente ultrapassado pelo tal motoboy que ele vinha bloqueando com afinco nos últimos trinta minutos.
À medida que dirigia, as nuvens carregadas o seguiam, arrastando-se pelo céu na sua direção, posto que, muito embora não soubesse, Pedrão era um Deus da Chuva. Tudo o que ele sabia era que os seus dias de trabalho eram uma porcaria e que tinha uma penca de férias lastimáveis. Tudo o que as nuvens sabiam era que o amavam e queriam ficar perto dele, para acalentá-lo e derramar água sobre a sua cabeça."


Pois é caro leitor, depois de ler o texto acima você deve pensar: -Mas que merda Dixon, o título dizia Pink Floyd. Pensei que ia ler uma caralhada de informações à cerca da banda, ou sobre outros talentos do rock e psicodélicos ainda por cima. 




Geralmente temos o costume de nos identificar com os gostos dos artistas que apreciamos. O texto acima foi adaptado para o Português brasileiro do Brasil, com a temática tipicamente tupiniquim com particularidades particulares ao nosso contexto (o pleonasmo era necessário, juro) de um obra muito apreciada e que foi escrita ao som de 'The Piper at the Gates of Dawn'. O texto é do livro "A vida, o universo e tudo mais" de Douglas Adams que foi extremamente incentivado por Roger Waters. A relação dos dois era tão próxima que Waters financiou diversos filmes do Monty Python - Companhia de Humor britânica que tinha seus roteiros totalmente escritos por Douglas Adams (Autor também do clássico 'O Guia do Mochileiro das Galáxias' e 'Praticamente Inofensiva'.




Pink Floyd iniciaram as suas atividades musicais em meados dos anos 60 e ao contrário de que boa parte daqueles que ignoram a pesquisa até no Google imagina este nome não se refere a um fluído rosa qualquer. Tampouco a efeitos lisérgicos causados por ácidos de mesmo principio ativo, referiam-se à dois excelentes músicos do Blues, Pink Anderson e Floyd Concil. 



As influências do pessoal vinha do Jazz, Blues, Surf Music e também o Psychedelic Rock americano que vinha ganhando força com a onda do 'Faça amor, não faça guerra' motivada pela guerra no Vietnã. Além de Anderson e Concil um pessoal como Nirvana (não, Kurt Cobain não influenciou Pink Floyd. Refiro-me a banda psicodélica homônima dos anos 60) e The Golden Dawn  não chegaram a influenciá-los mas lhe garanto que eram do agrado do conjunto. Lançaram a 'Saucerful Of Secrets' que inspirou o disco 'Paebirú' de Zé Ramalho nos início dos anos 70 e vieram 'More', 'Ummagumma', 'Atom' e 'Heart Mother' na sequência. Não preciso nem citar 'Another Brick on the Wall' em 1979 onde chegou ao topo das paradas e ainda deu tempo pra Water dar uma cuspidinha num fã que tentava subir ao palco durante uma apresentação.
Douglas Adams, lançou ainda 'Adeus e Obrigado pelos peixes', 'O restaurante no fim do Universo', 'Burocracia', 'O Sentido da Vida', 'O Titanic Galático' dentre outras.


sábado, 6 de agosto de 2011

The Office - 7ª Temporada, 1º Episódio - Que música é essa??

Você que assistiu The Office esta semana, com certeza, correu até o adventuoso microcomputador conectado a maior dádiva deste mundo desde a lasanha da minha mãe, a Internet, pra procurar que diacho de música muito louca foi aquela que tocou na abertura do episódio 'Nepotism'.
E se você parou aqui é porquê tem um excelente gosto musical e um sensor nos ouvidos que indica: Essa música é boa e tem grande probabilidade de ter mais de 35 anos. E você estava muito certo.


Estamos falando de uma bandinha praticamente esquecida nos confins do baú musical mas quando a gente abre o baú e relembra as capas dos discos, bate aquela nostagia. Ah, os anos 60...


Estamos falando da Human Beinz (Pequenho trocadilho americano para Human Beings ou Seres Humanos). A banda começou nos idos dos anos 60s chamando-se 'The Premiers' mas mudou o nome em 1966 acreditando que o primeiro nome nada representava o sentimento coletivo daquela era. O segundo nome sim e em setembro de 1967 chegaram no Billboard Top 40 com o hit 'Nobody But Me' - justamente a usada na abertura do seriado- e que chegou ao nº 8 da lista. Veja um vídeo da performance da banda aqui:





Este som, misturando Garage/Psychedelic/Frat que você ouviu é uma versão da já bem-sucedida e homônima 'Nobody But Me' da Familia Isley - 'The Isley Brothers':







O Grupo alcançou bastante sucesso ainda no Japão com o disco seguinte pela Capital Records. 'Turn On Your Lovelight' chegou ao topo das paradas japonesas e ainda teve tempo de ser regravada por Jerry Lee Lewis e Greatfull Dead.



Com Jerry Lee Lewis



E com Greatfull Dead


Os Cinéfilos me matariam aos impropérios proferidos se eu não citasse que a música apareceu ainda em Kill Bill Vol.1 de Quentin Tarantino (Porém, inexplicavelmente não apareceu na Trilha Sonora original do filme) em 2004 e na produção de Martin Scorsese 'The Departed' ('Os Infiltrados' aqui nas Terras de Santa Cruz) em 2006. A citação nos filmes fez com que o grupo fosse praticamente obrigados a se levantar de suas poltronas em Ohio e retornar ao palcos onde permanecem fazendo revivals pela Big Apple. Se você leu até aqui esperando o Download do disco e etc, fique sabendo que isso é crime. Diga não à pirataria!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Música Popular (Negra) Brasileira


Vinha escutando Martinho da Vila hoje, afinal nem só de Reggae vive este espaço e pensei como o negro desde sempre tem um desempenho fora do normal em qualquer atividade, sobretudo na música.

Acho que tem a ver com a própria história deste povo – Povo mesmo! Se o Judeu foi perseguido escravizado, rotulado, discriminado, exterminado e avariado, ganhou Israel, no mínimo o povo negro merecia a ilha de Manhatan só pra eles.

O Tosh explicou, uma vez em uma entrevista, sobre a origem do nome da banda que ele fundou com o Marley e o Livingston:

‘Wailers’ - ‘Wail’ é um verbo que significa exprimir os seus sentimentos vocalicamente. Quase uma lamúria, tipo ‘Bob Marley e os Lamuriadores’, ou ‘Bob Marley e os Lamentadores’ algo assim.

Já ouvi dizer que a música, a arte em geral, é uma expressão de um sentimento. Quem melhor pra exprimir um sentimento que eles?

Notadamente, esta opinião não é só minha, compartilho até com o nosso último imperador. Chamado de mecenas – Aquele que contribui financeiramente, ou até politicamente com a arte – D. Pedro de Alcantara, o Habsburgo, não o de Bragança, ou seja o Segundo mantinha em seu palácio uma orquestra composta somente de negros.

Racista? – Pensaria você, Politica Social do Império tropical?

-Não! Talento e Qualidade. Diria eu.


Orquestra Imperial (1872)

Veio a abolição e uma onda forte empurrou nossa gente para o fundão das grandes cidades.

Demorou um tempo até a maré baixar – É como quando você é uma criança e vai ver o mar pela primeira vez. Ele te derruba e te manda pro fundo na primeira onda, o choque é rápido e em pouquíssimo tempo você tá de volta a superfície.

É rápido quando você se lembra da cena, mas na hora lá, demorou tanto que dava pra contar as bolhas de ar saindo da sua boca ou perceber as sutis variações tônicas na cor da água acima dos seus olhos.

No contexto histórico, a retomada do ébano aos ouvidos populares foi rápido, mas pra quem sofreu o período de estagnação econo-racista foi como contar bolhas embaixo d’água, assim diria Simonal. Ninguem sabe o duro que dei! – Título do documentário de Claudio Manoel sobre o cara do Limão-limoeiro, aquele do pé de jacarandá.

No abaixar das águas, a maré revelou oculta no arrecife outrora inundado a voz e o ‘Wail’ do Martinho José Ferreira ou Martinho da Vila, Vila Isabel no norte do Rio, terra também de Noel, representante-mor e resultado clássico da história que o seu sangue carrega e faz sentir em nossos corações.

Martinho da Vila (1969)

Ouvi de um músico uma vez que a música é pra se sentir. Quem não a sente não a conhece.

Não tão somente misticamente, ou sentimento abstrato mas sentimento físico. Desde que a música existe, seus sons refletem fisicamente no ser humano, é pra isso que ela sempre serviu. Vai de como batuque africano contribui para o ritual de transe até o som utilizado nas igrejas evangélicas atualmente (Veja que a prática de música nas igrejas, pelo menos da forma que vemos ou ouvimos mesmo de bem longe, vem dos negros) contribuindo para o clima desejado dentro de uma Universal por exemplo.

Note como o som de um surdo em uma roda de samba ou o roncar de um baixo nas radiolas de reggae no Maranhão fazem o seu diafragma vibrar!

Nesta mesma onda surgiu a voz do Sebastião Rodrigues, o Maia. O Tim, trouxe pra república dos Tabajaras e Tupinambás um som novo, moderno, gingado como o reggae, malandro como o samba e carregado de Wail como a melhor música negra poderia trazer. Suas letras traziam as inquietações e percepções da sua própria realidade que só quem está na mesma afinação que ele (Na mesma maré sentimental do cara) pode sentir.


Primeiro Disco Tim Maia (1968)


Quem nunca concordou com ele alguma vez na vida com a frase:

“A gente tem que entender, que um nasce pra sofrer enquanto um outro ri..”

Seja quando você perde uma namorada ou não consegue aquele emprego que se queria bastante, ela ancaixa como prego de ferro em buraco imantado. Simplesmente porque ele também sentia algo parecido quando escreveu isso. Assim como tantos outros expoentes da nossa música, principalmente nas mesmas condições que comentei acima, e tantos outros influenciados – Assim como eu - ideologicamente, musicalmente e qualquer outra coisa que o sufixo ‘-mente’ permita.

Você pode até não gostar dos caras que apareceram neste texto, provavelmente porque nunca sentiu a música deles. Aqueles que você admira foi porque ‘sentiu’ a música. Isto não é uma crítica, somente um fato.

Fica aí um singelo Revival, um pequeno pincelar sobre as rugas da história da Música Popular (e Negra) Brasileira e parafraseando um conteporâneo desta realidade:

“Que tempo bom, que não volta nunca mais...!”

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Aswad - o Ritmo jamaicano nas terras da Rainha


Estimados leitores deste blog que ainda não existem devido à tão recente inauguração, hoje vou falar um pouco sobre o ritmo Jamaicano - mais conhecido como Reggae - nas terras da rainha Elizabeth II. Sim, ela mesma, a Grã-Bretanha também tem sua importância devidamente representada por excelentes músicos divididos entre diversos conjuntos como o Steel Pulse, UB40 (Apesar de eu considerar esta última bem afastada daquilo que seria Reggae de verdade) e principalmente a toda poderosa Aswad.

- Como assim? - Diria o fã médio de reggae brasileiro, diante da atitude deste blogueiro de citar um grupo praticamente desconhecido nas terras tupiniquins e ainda por cima, ter a pachorra de colocá-los acima da tão aclamada Steel Pulse.

- Calma, muita calma... - Diria à este fã médio, este blogueiro tão apreciador do reggae. Tecnicamente as outras bandas não se parecem nem de longe, muito longe e contra a luz com os britânicos de Ladbroke Grove tamanha a discrepância artística, comparando-os com o cenário tupiniquim então, Jah-jah...

Bom, vamos ao que interessa. Aqui abaixo você ouvirá um primor no que se trata de uma música feita com qualidade, a música 'Can't Stand the Pressure' música do primeiro disco da banda do ano de 1976:



Se você ouviu o som acima, deve ter lhe chamado a atenção os teclados bem marcados e equalizados além da boa percussão e das improvisações feitas pelo guitarrista Bringley Forde. Isso, meu caro amigo é Reggae de primeiríssima qualidade.

Fazendo prevalecer a teoria de que a geração que nasceu logo ao pós-segunda guerra mundial foi presenteada pelo cosmos com a capacidade artística acima da média, os contemporâneos Angus Gaye e Bringley Forde nos vocais; Donald Griffiths, Courtney Hemmings, Candy McKenzie e Delroy Washington nos vocais de apoio; Angus Gaye na bateria; George Oban no contra-baixo; Bringley Forde e Donald Griffiths nas guitarras; Courtney Hemmings nos teclados e Bunny McKenzie na harmônica fizeram um dos melhores trabalhos musicais voltados ao Reggae fora da Jamaica.


Na década de 80 o grupo lançou um disco fantástico, explorando o Dub Music e com uma arte maravilhosa na capa: New Chapter Of Dub. Este trabalho vendeu mais de 2 milhões de discos e figura entre um dos melhores albuns do gênero já lançado:

O grupo ainda chegou ao topo das paradas britânicas com o single 'Don't Turn Around' de 1988 e lançou seu último disco em 2009 o City Lock pela Bubblin Records.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mr Cool Ruler

É isso aí, pra abrir as postagens aqui na casa da boa música ninguém mais ninguém menos que ele! Sim, ele o Cool Ruler, criador no céu e na terra a poderosa Rockers Music (pra quem não conhece o termo, Rockers é o estilo do reggae com temática mais romântica com uma levada bem sentimental e nostálgica). O jamaicano começou na carreira musical no final dos anos 60 e chegou ao estrelato acompanhado pela excelente Roots Radics em meados dos anos 70 (Falaremos mais desta banda no futuro, fique tranquilo). O maninho aí possuía uma das mais belas vozes do cenário e estourou nos anos 80 em toda a Europa lotando casas de shows de Londres a Milão e de Lisboa até Berlim.


Neste vídeo, Isaacs destila o seu som num antigo programa jamaicano de auditório:





Vários artista internacionais chegaram a regravar alguns de seus sucessos como o inglês Mick Hucknall e a sua banda Simply Red no clássico Night Nurse (Ouça a versão do Simply Red aqui).


Abaixo, apresento-vos a Night Nurse na voz de Gregory Isaacs - ao vivo no maior festival de reggae do mundo - acompanhado pela tão celebrada Roots Radics:





Isaacs morreu à um ano de um câncer de pulmão depois de mais de 30 anos de carreira.
Deixou-nos um legado de mais de 700 músicas gravadas, 1 filme e mais de 200 albuns de uma música muito bem feita e produzida.